sexta-feira, 25 de novembro de 2011

As andarilhagens faladas dos outros

Outro dia eu estava dirigindo e vi um casal sentado na beira da estrada. Eles tinham várias bolsas, sacolas, caixas, panos de todas as cores estendidos pelo chão. Era a típica cena do casal de andarilhos, que sem ter onde morar vai ficando onde dá, caminhando ao sabor do vento, sem raízes. Donos apenas de seus trecos e de suas escolhas vão parando quando querem, caminhando da mesma forma. Naquela hora, mil e uma questões passaram pela minha cabeça, todas elas carregadas de minha racionalidade de pequena burguesa, mas falou mais alto em minha mente uma voz que gritava aplaudindo o que de mais lindo eles faziam: CONVERSAVAM. Uma daquelas conversas que se tem estirado, com a cabeça pendendo numa preguiça anunciada, sem pressa de dizer as palavras. Em seguida observei a segunda coisa mais linda que faziam: SE TOCAVAM, numa cumplicidade deliciosa! Percebi o carinho nas leves cutucadas que ela lhe dava enquanto falava e ele, ah, ele SORRIA de volta pra ela.. ali na beira da estrada, meio embrulhados em seus trapos, não havia nada que tirasse a beleza daquele casal entregue um ao outro. Fiquei pensando no quanto complicamos nossas histórias.. às vezes são pequenos detalhes que nos contrariam, tiram a graça que antes enxergávamos na companhia do outro. Perdemos tempo demais silenciando, quando a vida deveria ser repleta de palavras, gestos, aproximações. Por vezes bastaria sentarmos no chão ao lado do outro, deixando a cabeça pender, as reservas caírem, a vergonha esmorecer, pra conversarmos de verdade sobre tudo aquilo que é nosso, que nos faz, que nos amedronta. Olhando aqueles dois eu pude perceber que vale mais não ter raízes, se for pra que elas estejam plantadas em nossos corações.. vale mais não ter posses, se for pra que ajuntemos AMOR.. Fiquei pensando no que falavam, sobre o que confabulavam aqueles dois despreocupados seres andantes, ali sentados, conversando e tocando o presente de si mesmos.. confesso que naquele momento eu pude invejá-los.. pela simplicidade, calma e senso de oportunidade. . . O dia lindo pedia uma boa conversa tocada, sentida, percebida, desejada!! E eles souberam - sabem lhe aproveitar..

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